Na quinta-feira passada (19.04.07) assisti, no Espaço Unibanco, a pré-estréia do filme Batismo de Sangue. Após a exibição houve um debate entre o público e o diretor Helvécio Ratton. O filme conta a história da participação dos frades dominicanos na resistência ao regime militar brasileiro. O frades, inspirados na Teologia da Libertação, passam a apoiar o grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional (ALN), comandado por Carlos Marighella.
 
O evento foi organizado pela Folha de São Paulo, que no mesmo dia havia publicado um editorial com ataques ferrenhos ao MST. Que ironia, a Folha realiza um evento pra lembrar a resistência a ditadura e, no mesmo dia, faz um editorial defendendo um modelo econômico que nada mais é que o upgrade do implantado pelo regime militar. 
 

Bom, deixando essas contradições de lado vamos ao filme. Ele conta, principalmente, a história de Frei Tito; o frei mais torturado entre os dominicanos por causa de sua participação na organização do congresso da UNE. Devido aos traumas da tortura Frei Tito se suicidou no exílio, na França.


No filme, Tito foi torturado de forma sádica pelo delegado Fleury e seus comparsas; sendo pendurado em pau de arara, choques de todos os tipos e obrigado a beijar a mão de Fleury chamando-o de "papa". As cenas de tortura são realmente chocantes, deixando no cinema um clima de tremendo mal estar.

A mística da Teologia da Libertação também se destaca no filme. O momento aonde a mística dessa corrente católica se manifesta com plena potência é a missa dentro da prisão. Frei Beto, Frei Tito e os demais dominicanos presos, improvisam uma missa com bolachas maria como óstias e uma espécie de Tang como vinho. A mensagem passada no sermão, e os pedidos dos presos políticos, são um exemplo de prática espiritual redentora e socialmente atuante. 

Eu, como militante de esquerda, me emocionei em alguns momentos. Porém, não foram as cenas de tortura  ou da missa que mais me tocaram, mas sim as cenas aonde os frades se davam conta da apatia da população. Uma dessas cenas foi quando Frei Beto se escondia da polícia, esperando o primo de um outro frade num bar. Durante a espera a televisão do bar deu a notícia que Carlos Marighella havia sido assassinado. Somente Frei Beto sentiu o impacto da notícia, o resto do bar continuou com seus papos sobre futebol, mulheres, churrasco e outras coisas. O maior líder da resistência armada havia tombado e a população continuava na sua vidinha, apática.


Em outro momento Frei Tito, no exílio, descreve com uma clareza surpreendente o que aconteceu: "foi uma guerra pelo povo, e não uma guerra do povo" . Apesar de toda disposição e heroismo dos mártires da luta armada a mensagem da resistência democrática não conseguiu chegar ao povo. A linguagem da esquerda não era entendida pela população, que foi facilmente manipulada pela ditadura e pela imprensa que encontrava-se (ou ainda se encontra?) sob controle. Nesse momento, quando Frei Tito chega a essa conclusão, meus olhos se encheram de lágrimas; pois me dei conta que até hoje, mesmo após o fim do regime militar, a esquerda sofre do mesmo problema: não consegue se comunicar com o povo, que é facilmente manipulado pelo governo, pela imprensa e pelos estilos de vida imbecilizantes que a mídia promove através da filosofia das telenovelas e "reality shows" da vida.

 

André Takahashi - taka@riseup.net