Pequeno documentário cubano que explica o imperialismo através do Kung Fu. Me lembrou muito o Ilha das Flores.

Retirado do Jornal da Ciência

 
Uma pesquisa lançada pela Universidade de São Paulo nesta terça-feira, 25 de março, mostra elevado subsídio à indústria do livro técnico e científico e grandes limitações de acesso aos conteúdos produzidos com recursos públicos

Os livros científicos, técnicos e profissionais representam cerca de um quarto dos títulos editados no Brasil e 20% do faturamento do mercado editorial.

A pesquisa, inédita no Brasil, mostra que o subsídio público a esse setor acontece em pelo menos três momentos: na produção do conteúdo (por meio do financiamento da pesquisa científica), na produção industrial (por meio da imunidade tributária à indústria do livro) e na própria atividade editorial (por meio das editoras universitárias públicas).

Apesar do alto subsídio, o acesso público aos conteúdos científicos tem sido dificultado pela ação das editoras contra as fotocópias e pela ausência de políticas públicas de acesso.

O estudo estima que, nas áreas científicas, até 86% dos livros adotados no ensino superior são escritos por pesquisadores trabalhando em dedicação integral em instituições públicas. Isso significa que o conteúdo do livro é resultado de uma atividade científica fruto de investimento público.

Na produção industrial do livro, a pesquisa estima em cerca de um bilhão de reais o subsídio público na forma de imunidade tributária (isenção de pagamento de ICMS, IPI, PIS e Cofins). Esse subsídio público ao setor livreiro é superior ao orçamento de todo o Ministério da Cultura. A pesquisa estima também que as editoras públicas respondem por cerca de 10% dos livros adotados, havendo aí uma significativa participação pública direta.

Apesar do elevado subsídio público ao setor de livros técnicos e científicos, o Brasil carece de políticas articuladas de acesso que garantam que o público que financiou a pesquisa e subsidiou as editoras tenha acesso ao conteúdo.

Levantamento em 10 cursos na Universidade de São Paulo mostrou que os custos de aquisição dos livros exigidos num ano comprometeria mais de 90% da renda familiar mensal dos estudantes. Apesar disso, houve recentemente uma intensificação nas ações da Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (associação das editoras) reprimindo as fotocópias de livros nas universidades e uma tímida reação do Estado e demais instituições públicas na defesa do direito de acesso previsto na lei.

O relatório da pesquisa recomenda assim que a lei de direito autoral seja reformada para deixar mais claras as exceções e limitações que garantem o acesso público a conteúdos. Sugere também a adoção de políticas em instituições de pesquisa e editoras públicas para que os livros financiados com recursos públicos tenham licenças de direito autoral que garantam a livre reprodução para fins científicos e educacionais.
 
O relatório completo pode ser baixado AQUI
Comentário do Taka: Segue abaixo um artigo escrito pelo Jorge sobre os financiamentos bilionários sob condições secretas do BNDES. O artigo foi escrito para um jornal paulista mas a redação do jornal negou-se em publicá-lo. A resposta que ele recebeu foi:
"É complicado de publicar por que o jornal está buscando anúncios institucionais do BNDES"
Essa é a imprensa livre que temos no Brasil. Como o Jorge andou espalhando o texto em listas de emails tomei a liberdade de divulgá-lo no meu blog. 

BNDES: a Caixa Preta que precisa ser aberta
 
Jorge Machado*

*O BNDES, como todos sabem, utiliza recursos para seus financiamentos oriundos de fundos públicos, tal como o FAT - Fundo de Amparo ao Trabalhador. Tendo sido criado para ser um banco de fomento ao desenvolvimento econômico e social, sua finalidade deveria também ser compatível com a origem dos recursos.

No entanto, chama a atenção que no governo Lula o BNDES tem sido usado continuamente para apoiar grandes grupos económicos, alguns destes que ajudaram na campanha do partido e com enorme poder de lobby. Chama ainda mais a atenção o fato de que o BNDES passou a fazer empréstimos a empresas altamente capitalizadas, como as telefônicas, e em condições de sigilo absoluto. O BNDES divulga apenas a política de algumas linhas de empréstimos. São para os tomadores menores. Para os bilionários empréstimos feito às teles, só se sabe o montante emprestado. Os números são impressionantes: a Telefônica recebeu R$ 2 bilhões, a Brasil Telecom R$ 2,1 bilhões, a Telemar R$ 2,4 bilhões, a Vivo R$ 1,5 bilhão e agora, para a a compra da BrT pela Oi foram outros R$ 1,5 bilhão.

O contribuinte atento deve estar se perguntando: qual é a taxa de juro cobrada nesses empréstimos? Qual é o período de carência? Qual é o prazo para pagamento? Enfim, quais são as condições gerais do negócio? E o que levaria uma empresa estrangeira como a Telefónica, que pode conseguir empréstimos facilmente a juros mais baixos na Europa, preferir usar o dinheiro do BNDES? Algum leitor, sabe qual é a política de empréstimo para tais empresas? Dúvido. O autor dessas letras tenta a quase um ano descobrir isso, mas essa instituição “pública” nega veementemente a divulgar quaisquer informações.

O BNDES alega não poder fornecer tais informações devido a proteção legal de sigilo bancário de seus clientes. Ou seja, o argumento sigilo bancário, que se aplica ao cliente e não ao banco, é utilizado para que o mesmo deixe de fornecer informações sobre as políticas e linhas de financiamento que estão sendo utilizadas. Tais informações deveriam ser públicas, pois não afetam diretamente o sigilo do cliente. Para os tomadores menores, não necesariamente amigos do governo e com poder de barganha muito menor do que esses grandes grupos, sabe-se as condições. Estão lá no site.

O princípio da publicidade é um princípio republicano elementar no trato com as coisa pública. Como se trata de recursos públicos, não se pode esconder esses dados. O art. 5º, inciso LX da Constituição, afirma que "a lei só poderá restringir a publicidade dos atos processuais quando a defesa da intimidade ou o interesse social exigirem". A Carta Magna deixa claro que "todos os atos deverão ser públicos", ao mesmo tempo que restringe severamente quaisquer exceções.

Se o BNDES não faz nada ilegal ou imoral, qual é o problema em divulgar suas políticas de empréstimos? Afinal, qual é o atrativo se usar o dinheiro do BNDES? Será que é um negócio tão bom para o interese público o tanto quanto é para essas empresas? Por que os executivos do BNDES não tem coragem de divulgar esses dados?

A publicidade é fundamental em todas as funções e órgãos da república e o BNDES não pode ser uma ilha imune a leis e normas que regem a administração pública. O BNDES não é um banco privado e nem pode aspirar a funcionar como tal, simplesmente porque seus recursos são resultado do trabalho e suor de milhões de contribuintes.

O sigilo excessivo que marca essas operações não apenas lança dúvidas sobre a idoneidade de uma das instituições mais importantes do país, como ajuda a obscurecer ainda mais a nossa já combalida democracia. Esse é um exemplo que compromete ainda mais a credibilidade das instituições públicas, num país onde a falta de transparência cria terreno fértil
para a surgimento da corrupção.

*Professor de Gestão de Políticas Públicas
Universidade de São Paulo
No último sábado, 29 de março, faleceu aos 68 anos, de câncer, o zelador da Escola de Sociologia e Política Sr. Antônio Muniz Diniz, conhecido por todos como "Seu Diniz". Quem é espiano de verdade sabe de quem estou falando, do homem que sempre contava histórias do passado da ESP, instituição que ele acompanhou por mais de 35 anos.
 
Ele acompanhou quase todos os momentos relevantes daquela instituição, como o levante de estudantes e professores de 1983 e outros episódios da época da ditadura. Me lembro quando ele disse que ficava na portaria enrolando os caras do DOPS pra molecada esquerdista pular o muro fugindo da repressão. Ou então das conversas que ele teve com Fernando Henrique CArdoso quando este foi nomeado interventor pelo Ministério Público (atépouco tempo atrás, quando passava em frente a ESP, FHC parava seu carro para cumprimentar o seu Diniz). Quantas histórias que poderiam ter sido registradas por uma filmadora e ninguém teve essa iniciativa...
 
Vi que o site da Fundação subiu uma pequena nota a respeito do falecimento de seu funcionário mais antigo. Como a vida é curiosa... o Florestan Fernandes, que praticamente ocultou sua passagem pela ESP, virou nome de sala e do centro acadêmico. Já o Seu Diniz...
 
Isso me fez lembrar o camarada Sidney, um estudante que teve que abandonar a ESP por falta de dinheiro pra pagar a mensalidade e virou militante do MST. Morreu em um acidente de estrada quando se mudava de assentamento. Esse aí os estudantes até tentaram dar uma sala em homenagem, mas devido a má organização do CA da época - que  esqueceu de oficializar a homenagem - a Fundação mantenedora aproveitou a troca de gestão do centro acadêmico e as férias escolares pra retirar a sala do controle estudantil. 
 
A morte do Seu Diniz também me faz pensar que a ESP conta com outras pessoas emblemáticas, como o Seu João, o Adão livreiro (esse aí merece documentário), a professora Irene e tantos outros cuja história se confunde com a história recente da instituição.  Em homenagem à todos posto um poema de Bertolt Brecht.

Perguntas de um operário letrado

Quem construiu a Tebas das Sete Portas?
Nos livros constam nomes de reis.
Foram eles que carregaram as rochas?
E a Babilônia destruída tantas vezes?
Quem a reconstruiu de novo, de novo e de novo?
Quais as casas de Lima dourada
abrigavam os pedreiros?
Na noite em que se terminou a muralha da China
para onde foram os operários da construção?
A eterna Roma está cheia de arcos de triunfo.
Quem os construiu?
Sobre quem triunfavam os césares?
A tão decantada Bizâncio era feita só de palácios?
Mesmo na legendária Atlântida
os moribundos chamavam pelos seus escravos
na noite em que o mar os engolia.

O jovem Alexandre conquistou a índia.

Ele sozinho?
César bateu os gauleses.
Não tinha ao menos um cozinheiro consigo?
Quando a “Invencível Armada” naufragou, dizem que Felipe da Espanha chorou
Só ele chorou?
Frederico II ganhou a guerra dos Sete Anos.
Quem mais ganhou a guerra?

Cada página uma vitória.
Quem preparava os banquetes da vitória?
De dez em dez anos um grande homem.
Quem paga as suas despesas?

Tantas histórias.
Tantas perguntas.
O mês de março foi um mês marcado por iniciativas governamentais e privadas em censurar a internet. A mídia corporativa global só deu destaque à censura do governo chinês aos sites que divulgaram a repressão no Tibete, mas além da tradicional censura "comunista" o mês de março foi premiado com exemplos de autoritarismo e censura até mesmo na Suécia.

Censura na internet durante o mês de março


China:

Por causa dos protestos pela independência do Tibete o governo "comunista" chinês bloqueou o acesso de diversas páginas de internet, como o youtube e o site do jornal inglês "The Guardian", que foram os primeiros a divulgar fotos e vídeos da repressão aos rebeldes tibetanos.
 
Brasil: 
 
Durante mais de dois anos, Paulo Henrique Amorim manteve o blog Conversa Afiada no portal iG, em cuja página principal tinha um quadro de destaque permanente. A política era o assunto mais corriqueiro, e Paulo Henrique Amorim mantinha uma seção intitulada "Não coma gato por lebre", cujo objetivo, segundo ele, era deixar claro para o leitor as preferências e gostos do jornalista, de modo a não passar aos usuários uma falsa imagem de imparcialidade.

Declarava não gostar de Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Daniel Dantas e de quem , segundo ele, denigre nordestinos, entre outros. Em 18 de março de 2008, porém, o iG retirou abruptamente o blog do ar. Em nota, alegou que a audiência esperada estava aquém das expectativas e que os custos de sua manutenção não se justificavam mais, o que motivara a finalização do contrato antes de dezembro de 2008, o prazo final previsto.

Paulo Henrique Amorim relançou seu Conversa Afiada em novo endereço e questionou os motivos levantados, sugerindo que haveria interesses políticos e financeiros por trás da rescisão.

Turquia:

A página do Indymedia Istanbul (Centro de Mídia Independente na Turquia) está bloqueada para pessoas que acessam a internet por meio do provedor Turkish Telecom. A Turkish Telecom está redirecionando o endereço http://istanbul.indymedia.org do Indymedia Istanbul para uma página com a seguinte mensagem:

O acesso a este sítio foi bloqueado pela Telecommunication Communication Presidency devido ao decreto do Tribunal Penal de Araban, em Gaziantep, datado de 21/03/2008, número: 2008/418-171.

Mais tarde substituída por:

O acesso a este site foi bloquado pela Telecommunication Communication Presidency, devido ao decreto do tribunal da Presidêcia Geral da Corte Militar, datado de 21/03/2008 de número:2008/148-171.

Misteriosamente a mensagem mudou: antes o decreto havia sido emitido por um tribunal comum, agora por um tribunal militar. Outros websites também sofreram o bloqueio.

Suécia:

A revista digital espanhola Rebelion e o site da agência de notícias do governo boliviano (ABI), entre outras, foram censuradas por vários provedores de internet na Suécia e outros países da Europa. A empresa estatal sueca Telia, provedora de serviços de internet e telefonia, foi afetada por uma decisão da empresa norte-americana CogNet que administra o acesso à vários servidores. A decisão foi adotada unilateralmente, e impede que todos os usuários dos servidores Telia possam se conectar ao site Rebelion e ABI. CogNet censurou as páginas sem explicar as razões.

A estatal Telia alega que não pode fazer nada para restabelecer a conexão com esses sites, e admite que se trata de censura e limitação de informações. Também diz que está em negociação com CogNet, mas até agora sem resultados positivos.

O que mais me impressiona é que nesses casos a censura mais sincera foi a do governo Chinês, e a mais obscura a censura promovida num bastião "democrático" como a Suécia.

por Jorge Machado

O Chaos Computer Club, uma das maiores e mais influentes organizações hackers, publicou a impressão digital do Ministro do Interior Wolfgang Schäuble. Ela foi obtida a partir do copo em Schäuble bebia, "roubado" em um evento oficial.

O ministro Schäuble é o principal reponsável pela nova lei alemã que permite ao Estado espionar a vida dos cidadãos através do acesso aos dados de ligações telefônicas e e-mails enviados e que inclusive obriga os provedores de acesso a fornecer as senhas dos usuários às agências de segurança.

Com a publicação da impressão digital de uma pessoa pública o CCC quer chamar a atenção aos cidadãos sobre o os riscos do uso de impressões biométricas para "promover a segurança" - e que farão parte de todos os passaportes alemães.

Com a publicação da digital, o CCC quer mostrar que o armazenamento de dados biométricos por si não são seguros. O CCC publicou também como se pode fazer uma cópia da impressão digital, por exemplo, do ministro Schäuble, e colar ela no próprio dedo e enganar os leitores de impressão digital.

O Chaos Computer Club afirma que em breve vai divulgar as impressões digitais da primeira ministra Angela Merkel, de Otto Schily (ex-ministro do Interior), Günther Beckstein (ministro presidente de Bavária) e Jörg Ziercke, Presidente do Serviço Criminal Federal. Todos eles, políticos que defendem, em nome do combate ao terrorismo, mecanismos de controle que violam a privacidade dos cidadãos e que estão transformando a Alemanha em um grande "Big Brother".

 

Página do CCC ensinando a técnica em alemão. 

"GEORGE ORWELL teria entendido as atitudes Chinesas no Tibete. Em "1984" cunhou o termo "duplipensar", ou a capacidade de acreditar em coisas contraditórias. Assim os líderes chineses professam em acreditar que tanto a cultura tradicional tibetana é repugnante, cheia de superstição e crueldade, e que o Tibete é uma "parte de inalienável da China". Eles também reivindicam que o Dalai Lama, líder espiritual do Tibete, tornou-se irrelevante, mas insiste que ele conseguiu fomentar o último derramento de ressentimento anti-chinês visto no Tibete."

("A colonial uprising" - 19/03/08 - The Economist)
tradução da citação: Gus
 
crédito: EPA A atual crise no Tibete tá servindo pra cair a máscara de muitas organizações de esquerda que se dizem democráticas. Defendem a liberdade do Iraque ao mesmo tempo que defendem a ocupação chinesa no Tibete. O recado que essas pessoas e organizações passam é claro: imperialismo americano é ruim, mas o chinês é bom, só isso, sem maiores explicações.
 
Cheguei a ver textos esquerdistas falando que o Dalai Lama é contra as reformas "democráticas" que o governo chinês vêm implantando no Tibete, e pior, que a ocupação chinesa foi um pedido dos Tibetanos. Quando vejo esse tipo de distorção da realidade fico feliz que o socialismo autoritário da antiga URSS e leste-europeu tenha desmoronado, e que esse tipo de pensamento não tenha futuro algum no Brasil.
 
Mas eles (socialistas autoritários) também têm consciência que o brasileiro nutre aversão à esse tipo de regime FASCISTA com colorações vermelhas, por isso, na maior parte do tempo, encobrem seus arroubos autoritários através de campanhas de solidariedade aos povos oprimidos pelo império norte-americano. Porém, quando o grito de liberdade parte de um povo dominado pelo IMPÉRIO "democrático" chinês a máscara dos socialistas autoritários desaba, especialmente a daqueles que se encontram nos PCs (Partidos "Comunistas"). 
 
Somente para esclarecer meus leitores: minha solidariedade é para com o povo Tibetano e seu desejo de liberdade. Sobre o fato do Tibete voltar a ser uma teocracia caso o Dalai Lama logre êxito na sua campanha pela independência (ou maior autonomia) tenho minhas reticências. Não sou um defensor fanático do modelo democrático liberal (muito menos o "democrático" comunista), e a possiblidade de uma teocracia feudal, mesmo que budista, me incomoda. Porém, consigo visualizar  o Tibete como uma teocracia parlamentarista moderna (ok, meus amigos esquerdistas podem rir), aonde a figura do Dalai Lama seja a de uma autoridade espiritual e chefe de estado, deixando a chefia do governo nas mãos de um primeiro ministro eleito e de um parlamento representativo. Não é o ideal, mas acredito que seja a única opção aceitável pelo próprio povo tibetano, que aparentemente não está disposto à renunciar da centralidade da religião na condução de suas vidas. 
 
 
 
Pesquisa de links: Gus
 
Segue abaixo o relato de Beatriz Bispo, uma brasileira que estuda Budismo Tibetano há 15 anos na cidade de Dharamsala, onde funciona o governo tibetano no exílio. O relato foi repassado pra mim através do meu camarada Alessandro, dono do blog Paladar de Palavra.

 
UMA VISÃO GERAL DA SITUAÇÃO TIBETANA DENTRO E FORA DO TIBETE

16/03/2008

Índia: McLeod Ganj  (O quarteirão Tibetano em Dharamsala) está fervendo. Eu vivo a 200 metros do templo principal, o qual, nesses últimos dias, tem sido o  maior foco para as protestos aqui. As ondas das emoções que variam de alegria, cantos e gritos  de lamentos e "slogans",  que podem ser  ouvidos do meu quarto.   Na rua em frente ao templo uns quarenta Tibetanos estão em greve de fome, esperamos, porém que não cheguem até a morte.  Cem daqueles que planejavam marchar  de Dharamsala a Lhasa, foram detidos  antes que  chegassem à fronteria do estado do Himachal Pradesh  com o estado do Punjab. Eles estão sendo detidos por quatorze dias porque se recusam à assinar um papel no qual eles juram  que abandonarão a marcha. Ontem - dia 16/03 - um grupo de duzentos sairam em marcha de Macleod Ganj para cercar a prisão onde seus companheiros estão detidos. Este grupo se transformou em uma multidão de mais de  três mil dos Tibetanos que vivem aqui. E até hoje mesmo muitos outros estão dispostos a fazer o mesmo.    

Todas as lojas, restaurantes e tudo aquilo que diz respeitos aos Tibetanos estão fechadas. Em Delhi a poucos dias atrás uns cinqüenta protestantes também foram presos.  Eu há pouco vim do templo onde a Sua Santidade  o Dalai Lama deu uma entrevista  coletiva - jornalistas da BBC, CNN, Alemanha, Japão e outros  estavão presentes. Só aqueles  jornalistas da imprensa puderam participar da coletiva.  Tibete: Os chineses dizem  que dez pessoas morreram. Mas  a mídia noticiou uns trinta, a dois dias atrás. Ontem contavam oitenta corpos. Mas aqui as vozes que chegam dizem que são mais de cem. A tendência é só subir. O governo chinês pediu que os manifestantes se rendam antes da meia-noite de segunda-feira 17/03 - se eles desafiarem, ao invés do 'tratamento severo' receberão uma 'moderada' punição. Seríamos  hipócritas em acreditar nisso. Os manifestantes sabem o que exatamente se espera. Mas não eles esperam render. Os chineses os bloquearam em um quarterão velho da cidade.    

Ainda não é claro como começou a violência. Relatórios de Tibetanos em Lhasa, por celulares, dizem que as manifestações começaram pacificamente  por alguns monjes mas foram reprimidas pelas forças chinesas com força brutal. Isto fez com que as manifestações aumentassem, envolvendo pessoas leigas e eventualmente algum Tibetano, lançando pedras e queimando edifícios etc.   Quase todas as imagens e notícias vêm de Lhasa, com lojas quebradas e queimando. Todavia isto  parece ser mais uma tentativa, chinesa de retratar os Tibetanos como agitadores e 'terroristas separadores.' O que as novas imagens das notícias não mostram é a sua  ação severa. Relatórios nos chegam através de celulares dos Tibetanos na capital de Lhasa dizendo que grandes números de manifestantes  ainda inconscientes devido a um tipo de gás lançado,  foram levados  nos caminhões dos exército para lugar ignorado. Outros relatórios contam de pessoas sendo mortas e seus corpos sendo jogados fora.    

Embora a atenção da mídia esteja  concentrada em Lhasa, os Tibetanos em todas as  outras três regiões do Tibete (Utsang, Kham e Amdo), tambem fazem demonstrações com  milhares de participantes em Tau, Kandze, Lithang, Labrang Tashikyil e Penpo. Em Amdo Ngawa até mesmo 12,000 pessoas se levantaram em demostração de protesto. Na  Província de Gansu, os estudantes de uma universidade também se ergueram em manifestação. Em todos os lugares o exército chinês respondeu, a estas demonstrações pacíficas de forma brutal, matando um número de pessoas ainda não confirmado.   Tudo isso são só relatórios, o que realmente está acontecendo nesse momento em Lhasa e nas outras províncias do Tibet é muito dificil de ser efetivamente constatado.   O Dalai Lama e o Governo chinês: O governo chinês diz que as demonstrações foram "habilmente  planejadas pelo Dalai e seu  grupo exclusivo'. O Dalai Lama desmentiu tudo  isso publicamente e temos toda razão para acreditar nele.

Ele lamentou profundamente pelas perdas das vidas que estão ocorrendo não pode  encorajar  as ações que custem as vidas de outros seres.  Por isso é inverossímil,  dizer que as manifestações foram coordenadas por ele, como os Chineses estão proclamando. É muito mais plausível, e de acordo com aquilo que eu conheço dos Tibetanos, que eles tenham começado com demonstrações pacíficas espontâneas  aproveitando essa oportunidade das Olimpíadas em Beijim,  onde o mundo inteiro esta aí focalizado, para  fazer  a causa do Tibet se tornar em uma causa de interesse mundial,  tais demonstraçoes ganharam impulso e geraram eventos semelhantes em outros lugares.  

A intensidade que nós estamos vendo, é uma explosão de frustração retida por quase cinco décadas, um ressentimento por serem oprimidos por um regime que não dá liberdade de expressão, religião e cultura, e não o produto de um 'esquema do  clã do Dalai.' Os Tibetanos se sentem entristecidos e com toda razão. As atrocidades  que vem acontecendo a mais de 60 anos são muitas e variadas, não reveladas aos olhos do mundo. Entretanto aqui  não é o lugar para entrar em detalhes.  Embora seja verdade que o Dalai Lama tenha se recusado a pedir que parassem as manifestações, não foi porque ele desejasse causar algum dano aos Chineses ou encorajasse a violência. E sim por que nesses últimos dias ele recebeu telefonemas de Tibetanos suplicarando a ele  que não lhes pedisse para suspender  as suas manifestações.

Os Tibetanos querem exercitar os seus básicos direitos humanos de expressão. Durante anos o povo tibetano foi atormentado  por um sentimento de inutilidade, de querer melhorar as condições na sua própria pátria sem o menor resultado. Agora, eles acham que têm uma oportunidade para fazer algo que poderia  trazer a atenção do mundo à situação do Tibet. Qualquer que seja o resultado mesmo seja  se unindo em uma marcha, a sensação de estar contribuindo pessoalmente com algo,  dá esperança e coragem as pessoas. Considerando que não fazendo nada somos conduzidos à desesperança e a frustração. Se no caso o Dalai Lama pedisse aos tibetanos para pararem com as manifestações, eles se sentiriam devastados, porque eles o respeitam acima de qualquer outra coisa e não querem contradizer  os seus desejos expressos. Mas os Tibetanos, e principalemente a nova geração, sente a necessidade de agir, e agir agora. Muitos Tibetanos me disseram, "Como eu não posso simplesmente fazer nada enquando meus irmãos e irmãs estão  no Tibet arriscando as suas próprias vidas pela nossa pátria? Nós temos uma responsabilidade para os apoiar, não só em pensamento, mas também em palavra e ação."    

As demonstrações começaram no dia 10 de Março que é o 49º aniversário da insurreição falhada contra o chinês após o qual a Sua Santidade fugiu do Tibete para a Índia. É uma data que trás emoções dolorosas para os Tibetanos. E eles sabem que o mundo está vendo a China na corrida até as Olimpíadas. Estes dois, o aniversário da rebelião e a chegada das Olimpíadas, proporcionaram às pessoas um catalisador.  Por favor lembrem que o Tibetanos não são hipócritas. Embora não  se poderia esperar tal reação de povo nômade e comerciante, eles são politicamente astutos. Eles tiveram que sobreviver sob um regime comunista. E ainda, considerando que em outro lugar tal astúcia combinada ao egoísmo poderia ter conduzido à colaboração. Ao contrário em geral, os Tibetanos resistiram à ideologia comunista chinesa e à sua propaganda. Eu atribuo isso à força de caráter e cultura desse povo. Embora quieto durante relativamente muito  tempo, eles esperaram pacientemente o momento apropriado de agir.   Esses são os fatos até onde se pode averiguar.       

Quanto a minha opinião. Eu me senti devastada  e com lágrimas nos olhos quando eu vi os primeiros relatórios na BBC. Enquanto os meus amigos (monges Tibetanos) asseguraram que o que nós estamos vendo era bom. Apesar de ser  um erro e queimar as lojas fosse algo que eles não devessem ter feito... eles fizeram,  e os outros notarão...  Eles estão frustrados pelo jeito em que a Comunidade Mundial até hoje não fez nada mais para garantir a paz e liberdade pessoal no Tibet. Eles querem a expressão do mundo e seu apoio.    Os Tibetanos acham(como eu também) que esta é uma hora crítica. O Dalai Lama tem 73 anos. Com as Olimpíadas em Beijing, o mundo pode ter alguma  influência sobre China. Pode ser um tipo de idealismo (eu não direi ingenuidade) esperar que, por uma vez, o mundo coloque suas preocupações humanitárias e éticas à frente do lado econômico. Se não agora, então quando?  

Eu não espero que a situação possa  ser resolvida logo. Haverão incidentes relacionados às Olimpíadas. As Olimpíadas devem prosseguir, porque o mundo estará lá para testemunhar.   Embora possa aparecer firme, O governo  chinês, é frágil por essa razão que é obrigado a usar meios brutais e medo. Eles não têm nenhuma consideração pelos sentimentos e mentes das pessoas. O que aconteceu na Europa oriental é ligado ao que eventualmente pode acontecer na China.    Ou seja, eu não estou predizendo a queda iminente do regime comunista chinês. Eu só pretendo insinuar que essa agitação é difundida e sentida profundamente. Não só no Tibet mas através de toda China. Vamos esperar que estas manifestações tragam frutos positivos, sejam para os Tibetanos, para os Chineses  e para o mundo.   Eu peço a vocês que leiam, assistam ou escutem o que a Sua Santidade o  Dalai Lama diz. Ele é prático, sábio e acima de tudo compassivo. Ele não é nenhum estadista ordinário e a resposta dele seguramente será um testamento da  originalidade do seu  pensamento.

Beatriz Bispo_ Dharamsala, India

Os frutos do Plano Colômbia


2008-03-14


Raúl Zibechi*


O operativo militar executado por militares colombianos em solo equatoriano para matar o dirigente das FARC Raul Reyes, é parte da estratégia dos EUA para alterar o equilíbrio militar da região. Na mira está o petróleo da Venezuela e do Equador, porém também está em xeque o Brasil como potência regional emergente.


Nas declarações, o objetivo são as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), ou seja o narcoterrorismo. Porém, na realidade o operativo militar colombo-estadunidense que vulnerabilizou a soberania do Equador aponta diretamente para Hugo Chávez. Estamos vivendo o que podería ser a primeira fase de uma vasta ofensiva para desestabilizar o processo bolivariano e modificar a relação de forças na América do Sul.


A estratégia foi sendo implementada por etapas. Primeiro foi o Plano Colômbia para fortalecer a capacidade militar do Estado colombiano e coloca-lo entre os mais poderosos do continente. Depois, começou o “derrame” da guerra interna colombiana sobre os países vizinhos. A terceira etapa parece ser a “guerra preventiva”, que se converteu em uma destacada estratégia militar do Pentágono logo depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001.


É a primeira vez em muito tempo que Washington toma a ofensiva na região e é capaz de colocar uma porção importante dos países latino-americanos atrás da sua estratégia. É também uma ostentação de força no momento que o governo de Hugo Chávez atravessa sérias dificuldades internas e não consegue apoios paraa sua estratégia de responder tensão com mais tensão.


Em primeiro lugar o que chama a atenção é a falta de pudores dos atores. As FARC se apresentam como uma organização revolucionária e popular porém, na realidade, são um grupo armado que viola os direitos humanos, recruta menores à força, abusa das mulheres e dos reféns que mantém em seu poder e se financia graças ao narcotráfico. Muitos países a consideram terrorista.


Por outro lado, o presidente Álvaro Uribe Vélez integrou o narcotráfico e foi aliado dos paramilitares, como está registrado no Arquivo de Segurança Nacional dos Estados Unidos revelado pela revista Newsweek em 2004. Ali, aparece que Uribe fazia parte, no início dos anos 90, do Cartel de Medelin, comandado pelo narcotraficante Pablo Escobar, de quem era amigo íntimo [1]. Esse é o tipo de pessoa que George W. Bush definiu em 4 de março deste ano como “nosso aliado democrático”. Uribe se converteu no principal operador das políticas da casa branca na região.

 

Novo equilíbrio regional de forças


Super-Tucano Em 2004 uma revista militar brasileira (Military Power Review) elaborou um ranking das forças armadas sul-americanas incluindo todas as variáveis: desde a quantidade de efetivos e a qualidade do equipamento até os planos de defesa e a projeção estratégica. A análise estabeleceu uma pontuação a cada nação de acordo com seu poderio militar. Em primeiro lugar aparecia o Brasil com 653 pontos; em uma segunda colocação aparecia o Perú com 423 pontos, Argentina com 419 e Chile com 387. Logo vinha outro grupo em que estava a Colômbia com 314, depois a Venezuela com 282 e o Equador com 254 pontos [2]. Naquele momento, há apenas 4 anos, a diferença a favor das forças armadas do Brasil era considerável, enquanto era seguido por dois grupos de países relativamente emparelhados entre si.


Em 2007 a mesma revista difundiu dados sobre a quantidade de efetivos das diferentes forças armadas em cada país com cifras do ano anterior. Os dados dos exércitos permitem concluir que a Colômbia (178.000 soldados) se situou em segundo lugar no continente muito próxima do Brasil (190.000 soldados). Em poucos anos, o poderio militar desse país escalou posições em forma geométrica. Nesse mesmo ano o exército da França tinha 137.000 efetivos e o de Israel 125.000. Para 2008 já são 210.000 os efetivos terrestres da Colômbia, superando dessa forma o Brasil que tem uma população 4 vezes maior e 7 vezes a superfície colombiana. O gasto militar da Colômbia é o maior do continente: 6,5% do PIB, muito acima do gasto dos EUA (4%), dos países da OTAN (2%) e do resto da América do Sul (1,5 a 2%).


Se observarmos a progressão das forças armadas da Colômbia, seu crescimento é assombroso. Em 1948, quando aconteceu o assassinato de Jorge Eliécer Gaitán que deu início à “La Violência”, haviam 10.000 militares. Em 1974 já eram 50.675 para subir até 85.900 em 1984, no período que começaram as negociações de paz para a desmobilização de várias organizações armadas. Para 1994 havia 120.000 efetivos que se elevaram a 160.000 nas primeiras fases do Plano Colômbia. Neste momento, as três armas das formas armadas colombianas têm 270.000 uniformizados aos quais se somam 142.000 policiais. No total, mais de 400.000 pessoas em armas em sete divisões, com uma Força de Deslocamento Rápido e uma agrupação de Forças Especiais Anti-terroristas [3].


Só em 2007 o exército criou 52 novas unidades. Recebeu doações de helicópteros Black Hawk dos Estados Unidos, comprou 13 aviões de caça de Israel e 25 aviões de combate Super Tucano do Brasil em 2006. As forças armadas da Colômbia são muito superiores às de seus vizinhos. A relação de efetivos é de seis pra um com a Venezuela e de onze a um com o Equador. Porém, a principal diferença é que se trata de tropas treinadas em combate de selva e que contam com respaldo logístico de Washington [4].


Em pouquíssimos anos, se produziu na América do Sul uma virada espetacular do poderio militar. É resultado do Plano Colômbia. Com a desculpa de combate às FARC e ao Narcotráfico, desde agosto de 2000, quando o Congresso dos EUA aprovou o Plano Colômbia, este país recebeu U$ 5,225 bilhões de ajuda militar. A isso se soma a aplicação do governo de Uribe de impostos especiais aos setores de maior rendimento econômico para equipar as forças armadas. Helicópteros de transporte e ataque, armamento leve, óculos infra-vermelhos, proteção de oleodutos, lanchas rápidas, aviões turbohélice de ataque à terra, aviões de inteligência, controle e radares para seguir vôos ilegais, são as principais aquisições [5].

 

 

Envolver os vizinhos


Em 2003, o sociólogo James Petras apontava que a verdadeira preocupaçao do Comando Sul dos Estados Unidos, quem realmente desenha a política regional, é que “os países vizinhos da Colômbia (Equador, Venezuela, Brasil e Panamá), que estão sofrendo os mesmos efeitos adversos das políticas neoliberais, se mobilizem politicamente contra a política militar e os interesses econômicos dos Estados Unidos [6].


Por isso a estratégia contemplada pelo Plano Colômbia não consiste tanto em ganhar a guerra interna mas espalhar-la pelos países visinhos como forma de neutralizar sua crescente autonomia em relação à Washington. Militarizar as relações inter-estados sempre é um bom negócio para quem apóia sua hegemonia na superioridade militar. Nesse sentido, a existência das FARC é funcional aos planos belicistas de Washington.


Rafael Correa mencionou que o custo de controlar a fronteira com a Colômbia, aonde tinha destacados 10.000 efetivos antes da incursão de 1º de março, supera os cem milhões de dólares anuais. A Colômbia não controla essa fronteira e empurra a guerrilha até o solo equatoriano, como forma de produzir desestabilização. Nos últimos anos, o Equador desmantelou em torno de 40 acampamentos das FARC na sua fronteira e apresentou dezenas de queixas pela fulmigação de supostos cultivos de coca que terminam afetando a população equatoriana fronteiriça. O Brasil decidiu impermeabilizar sua fronteira já nos tempos de Fernando Henrique Cardozo. Em resposta à intenção da administração Clinton de implicar-lo nos objetivos do Plano Colômbia, já em 2000 colocou em marcha o Plano Cobra (das iniciais de Colômbia e Brasil) para evitar que a guerra nesse país se desdobrasse sobre a Amazônia brasileira, e o Plano Calha Norte para evitar que guerrilheiros e narcotraficantes cruzem a fronteira [7].


O controle da região andina é considerada chave para a hegemonia estadunidense no continente, tanto por razões políticas como pela riqueza mineral que ela contém. Permite que as multinacionais estadunidenses recuperem o terreno perdido desde que na década de 90 foram parcialmente substituídas pelas européias; asseguraria por outros meios o que se pretendia através da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) ; impede que outras potências emergentes (Brasil, China e Índia) se posicionem na região.


Porém, existe também a vertente petróleo. Em 1973, os Estados Unidos importou 36% das suas necessidades petroleiras. Hoje em dia os Estados Unidos importa 56% do petróleo que consome. A Venezuela é o quarto provedor, que abastece 15% das suas necessidades, e a Colômbia o quinto provedor [8]. Assegurar o fluxo do recurso energético requer um controle territorial de enclave com presença militar sobre o terreno.


A desestabilização da Venezuela


Desde a derrota do governo Chávez no referendo para a reforma da Constituição, o 4 de dezembro de 2007, a tensão interna e regional deu vários passos adiante. Como prognisticaram vários analistas , a crise econômica parece fora de controle e está gerando problemas nas relações entre o governo e a população [9]. Parece ser uma boa ocasião para tentar a desestabilização.


Efetivamente tudo indica que Raul Reyes, a cara mais visível das FARC por causa de seu caráter negociador, havia sido localizado em ocasiões anteriores mas nunca se decidiu atacá-lo. A decisão de desencadear uma ação desse tipo, neste momento, teria várias leituras. Por um lado, aproveitar a situação interna da Venezuela, mas também abalar a governabilidade de Rafael Correa que está no começo de um programa de transformações que têm no controle estatal do petróleo um dos seus eixos principais, e em uma sólida aliança com o Brasil um ponto de apoio essencial.


Porém, uma desestabilização da região também teria efeitos muito nocivos para o Brasil, a potencia regional emergente que está saindo fortalecida da crise econômica mundial em curso. Em 2007 o Brasil teve um aumento de 84% de investimentos estrangeiros diretos em relação a 2006 e em janeiro de 2008 o dobro que o mesmo mês do ano anterior. Com razão, a revista Exame publica um informe que assinala que o país vive o melhor momento econômico em três décadas e que tem a oportunidade de entrar na elite do capitalismo mundial [10].


Ocupar esse lugar pressupõe substituir outros. Ou seja, Brasil está preenchendo o vazio que a crescente debilidade de Washington está deixando. Por isso sua diplomacia joga pela paz: para promover os negócios e para podar o militarismo que sempre é o melhor negócio para uma superpotência em decadência. Clovis Brigagao, diretor do Centro de Estudos Americanos da Universidade Cândido Mendes do Rio de Janeiro, assinalou que o momento atual é uma oportunidade única para estabelecer uma mediação coletiva similar ao Grupo de Contadora que nos anos 80 promoveu a pacificação da América Central [11].


Por último, a Venezuela está sofrendo um tipo de desestabilização que pode ser um modelo para aplicar-se em outros países. Júlio Garcia Jarpa, deputado do estado de Táchira, fronteira com a Colômbia, observa a extensão na Venezuela do fenômeno paramilitar. “Diante do plano de desmobilização do paramilitarismo na Colômbia, alguns grupos se concentraram na fronteira com os estados venezuelanos Apure, Zulia, Mérida, Táchira e Trujillo [12]. De lá contrabandeam gasolina, monopolizan alimentos e contribuem para gerar insegurança, corrompendo funcionários e gerando um clima de violência.


Esses estados conformam um terço do país e são os que contam com os recursos de hidrocarbonetos mais importantes e estão incluídos, segundo denuncia o deputado venezuelano, em um plano de secessão como o que promovem os departamentos de Santa Cruz e Tarija na Bolívia. Depois do ocorrido no Kossovo, aonde a independência promovida pelo ocidente parece ligada ao negócio petroleiro, a tese de que a direita venezuelana, apoiada pelos interesses estadounidenses, promovam a secessão da região ocidental não parece um disparate.


Em paralelo, os dados que estão saindo à luz permitem concluir que boa parte das denúncias de Chávez sobre uma conspiração contra seu governo não são fruto da sua imaginação. O assunto é como conter as tendências à guerra e como cortar a polarização. Nesse sentido, a diplomacia brasileira segue dando mostras de sentido comum e de saber fazer. Não deixou de tomar partido pelo agredido, mas colocou o norte em construir uma paz estável na região, assentada na integração regional. Para isso, a construção da Comunidade Sul-americana de Nações é mais urgente do que nunca.


O negócio da guerra


A origem das FARC é diferente da de outros grupos combatentes. Em 1948 foi assassinado o líder liberal Jorge Eliécer Gaitán, caudilho popular detestado pela intranssigente oligarquia colombiana. O magnicídio provocou uma grande revolta popular, o Bogotazo, e um longo período de guerras entre Liberais e Conservadores conhecido como La Violencia, onde morreram umas 200.000 pessoas. Liberais e comunistas, perseguidos ferozmente pelo Estado, se refugiaram em regiões remotas e inacessíveis e resistiram durante mais de uma década, até que boa parte deles se reagruparam no que posteriormente seriam as FARC. Em 5 de maio de 1966 nascem as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) como braço armado do Partido Comunista.


A origem Liberal de boa parte dos seus efetivos, entre eles Manuel Marulanda Vélez, Tirofijo (Tirocerto), seu principal dirigente, marcam diferenças com a maior parte das guerrilhas do continente. Por volta dos anos 60, as guerrilhas liberais e comunistas foram confluindo em “zonas liberadas” nas quais fundaram “repúblicas independentes” como a de Marquetália.


A segunda vertente, mais importante ainda, defende a necessidade dos camponeses se defenderem dos latifundiários, que marginalizaram e expropriaram as maiorias camponesas as empurrando até as margens da fronteira agrícola. A guerrilha colombiana se conforma, na prática, como grupos de autodefesa camponesa diante das violência extrema dos poderosos.


Até começos da década de 1980 as FARC contavam com mil à três mil combatentes. Em maio de 1984 estabelecem um cessar-fogo como parte dos acordos de paz assinados com o presidente Belisario Betancourt, e criam a Unidade Patriótica (UP) para participar nas eleições e na vida política legal. Porém, a UP foi aniquilada pela ação conjunta dos narcotraficantes, os paramilitares e o Estado. Em poucos anos foram assassinados entre dois e quatro mil simpatizantes e dirigentes da UP.


A partir de 1986, sob o governo Virgilio Barco, começaram processo de paz com o M-19, o EPL, o PRT e o Movimento Armado Quintín Lame, que formavam junto com as FARC e o ELN a Coordenadora Símon Bolívar. Como parte dos acordos de paz com esses grupos figurava a convocatória de uma Assembléia Constituinte. Em 9 de dezembro de 1990, no mesmo dia em qua se elegiam os constituintes e enquanto ainda se negociava a paz com as FARC, o exército sem aviso prévio lançou uma ofensiva contra a mítica Casa Verde, sede do Secretariado do grupo guerrilheiro.


Em 1998 se abre um novo processo de paz com o presidente Andrés Pastrana e a criação de uma Zona de Distenção Desmilitarizada de 40.000 kilômetros quadrados. Em 2002 se pôs fim à experiência no meio das acusações de que as FARC participam do negócio do narcotráfico e praticam o recrutamento forçado de menores, enquanto o governo de Pastrana negociava o Plano Colômbia para se fortalecer e ganhar o conflito.


Com o governo Uribe, desde 2000, tudo foi piorando. As FARC tiveram que se recolher e perderam numerosos efetivos e, sobretudo, a iniciativa militar e política. Entretanto, a política de Washington e de Uribe não são suficientes para explicar o brutal isolamento das FARC, o que representa sua derrota política e, provavelmente, sua futura desaparição como grupo significativo.


A forma como se financiam é um dado relevante. Aproximadamente 78% de sua renda, ou seja em torno de um bilhão de dólares anuais, se obtém por sua participação no narcotráfico, segundo o governo da Colômbia. Uma parte substancial é o chamado 'impuesto al gramaje', pago por cada grama produzida por camponeses e traficantes. Outros 600 milhões de dólares se obtém, segundo as mesmas fontes, das “vacunas” (vacinas) ou extorsões e sequestros. O resto da sua renda provém do roubo de gado dos latifundiários.


Um segundo elemento que deslegitimou as FARC é que entre 20-30% de seus efetivos são menores, muitos deles recrutados à força segundo denúncia da Humans Rights Watch. Em terceiro lugar, estão seus métodos, com frequência muito similares aos que empregam os paramilitares e as forças armadas. As FARC têm cometido massacres contra camponeses e grupos indígenas e a Anistia Internacional considera que eles violam os Direitos Humanos. Por último, a divulgação de imagens e testemunhos sobre os reféns e prisioneiros, presos com correntes há cinco, seis ou mais anos, terminaram de sepultar a sua credibilidade.


Pior que ainda tem mais. As pessoas comuns percebem que a guerra a prejudica e beneficia os poderosos.Dessa forma os paramilitares se posicionam como um projeto de refundação e de organização das novas formas de acumulação, onde a mineração ao céu aberto e os biocombustíveis se posicionam como os carro-chefes. 

 

*Raúl Zibechi é editor de Política Internacional do “Semanário Brecha de Uruguay”; é autor de vários livros como “La Mirada Horizontal”, “La Revuelta Juvenil De Los 90”, “Los Arroyos Cuando Bajan” e “Genealogia De La Revuelta”; além de ser o ganhador do Prêmio Latino-americano de Jornalismo José Marti 2003. Seus textos podem ser encontrados em:


http://zibechi.sincensura.org.ar/

http://alainet.org/


notas:


1) Newsweek, 4 de agosto de 2004 en www.newsweek.com/id/54793
2) Ver www.militarypower.com.br/frame4-ranking.htm.
3) José Fernando Isaza Delgado y Diógenes Campos Romero, 'Algunas consideraciones cuantitativas sobre la evolución del conflicto en Colombia', Bogotá, diciembre de 2007.
4) 'Uribe listo para ir a la guerra', Página 12, 5 de marzo de 2008.
5) Fabián Calle, 'La crisis Venezuela-Colombia: las capacidades militares que esconden las palabras', 4 de marzo de 2008, www.nuevamyoria.com.
6) James Petras, 'La estrategia militar de Estados Unidos en América Latina', en América Libre, No. 20, enero 2003.
7) 'Os militares, o governo neoliberal e o pé americano na Amazonia', en revista Reportagem, www.oficinainforma.com.br.
8) Raúl Zibechi, 'El nuevo militarismo en América del Sur', Programa de las Américas, mayo de 2006.
9) Raúl Zibechi, 'Venezuela: Debates a raíz de la reforma de la Constitución', Programa de las Américas, diciembre de 2007.
10) 'O Brasil que acelera', Exame, 6 de marzo de 2008 en http://portalexame.abril.com.br.
11) Mario Osava, 'Brasil se resiste a mediar en conflicto andino', IPS, 4 de marzo de 2008.
12) Miguel Lozano, 'Paramilitarismo, punta de lanza del separatismo en Venezuela', Prensa Latina, 7 de marzo de 2008.


fonte: http://www.alainet.org/active/22794


tradução: André Takahashi em 23/03/2008 – Taka @ riseup.net

revisão: Rafael Xavier em 25/03/2008

Mais um post a respeito de UFOs. Aqui vai um post sobre o que ficou conhecido como "A Noite Oficial dos OVNIs", na minha opinião um dos casos mais importantes da Ufologia mundial. Nessa época eu tinha apenas sete anos. Além dos avistamentos relatados por militares conheci diversas pessoas que viram luzes nos céus de São Paulo nessa mesma época. Abaixo postei uma reportagem do Fantástico e um artigo da revista da Força Aérea.


 

 

Leia na íntegra a reportagem publicada na Revista Força Aérea Nº 43, sobre a Noite Oficial dos UFOs no Brasil.


Por Mariana Raad

 

"...Cheguei perto do alvo, posicionando-me a cerca de seis milhas de distância dele, o que ainda é longe para que possa haver uma verificação precisa, ainda mais à noite. O alvo parou de se deslocar na minha direção e começou a subir. Eu não perdi o contato radar inicial e passei a subir junto com ele. Continuei seguindo o contato até cerca de 30 mil pés, quando perdi o contato radar e fiquei apenas com o visual. Mas, naquele momento, aquela luz forte já se confundia muito com as luzes das estrelas..."

 

Este é o depoimento de um dos pilotos de combate da FAB acionados para interceptar contatos não-identificados que invadiram nosso espaço aéreo em 19 de maio de 1986. Vinte anos se passaram desde aquele enigmático episódio, sem que explicações mais conclusivas tenham sido apresentadas sobre o assunto. O que realmente teria acontecido naquela noite de outono?

Na noite de 19 de maio de 1986, os radares que controlam os céus brasileiros sobre São Paulo, Rio de Janeiro e Anápolis de repente começaram a ver coisas estranhas! Até hoje os fenômenos daquelas poucas horas frenéticas não foram explicados. Além dos operadores dos radares do CINDACTA I (Primeiro Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo), pilotos de caça e da aviação civil participaram da tentativa de identificação daqueles plotes (pontos de radar) inexplicáveis e fizeram, inclusive, contatos visuais, mas até hoje não há soluções concretas para o ocorrido.

A situação teve início por volta das 19h, quando o Coronel Aviador Ozires Silva comandava o queCoronel Ozires Silva podia ser um de seus últimos vôos na Embraer, já que estava deixando a presidência desta, para assumir a da Petrobrás. Após quase duas horas voando a bordo de um turboélice Xingu, já próximo a Poços de Caldas e a 22 mil pés de altitude, o Coronel Ozires e seu co-piloto Alcir Pereira da Silva foram surpreendidos com um questionamento do CINDACTA I. O controlador deste Centro perguntava sobre um possível contato visual com três alvos não-ídentificados, que apareciam no radar.
 

Sem que avistassem algo, resolveram então manter a proa, aproximando-se de São José dos Campos, na direção indicada pelo controlador. Foi assim que, mais tarde, avistaram algo com aparência semelhante a de um astro. Uma luz muito forte e fixa no espaço. Sua cor era a de um forte amarelo, com tendência ao vermelho. Por volta das 22h, quanto mais se aproximavam do objeto, mais ele desvanecia, até desaparecer por completo. Decidiram então, voar para leste, cruzando o Aeródromo de São José, rumo a um segundo objeto aparentemente situado ao sul de Taubaté. Abaixo de seu nível de vôo, a cerca de 600 m do solo, se depararam com uma nova luminosidade, com a aparência de uma lâmpada fluorescente. Era difícil acreditar que o controlador tivesse esse objeto em seu radar, já que se encontravam voando baixo e a 250 km da antena do radar de Sorocaba.

Este acontecimento foi apenas o início de uma noite misteriosa, na qual cinco caças da Força Aérea Brasileira foram empregados na tentativa de identificar tais objetos. Este tipo de acontecimento não é usual, mas a urgência em identificar aqueles plotes radar foi determinante para que o CINDACTA I acionasse os caças naquela noite.

O que os controladores estavam vendo em suas telas naquele momento não constituíam tráfegos de aviões, e nem nuvens. Aqueles pontos não estavam dentro das configurações dos computadores do Controle de Tráfego Aéreo como um retorno radar habitual, e a situação foi imediatamente reportada ao CINDACTA I em Brasília, que, por sua vez, repassou a informação para o Centro de Operações de Defesa Aeroespacial (CODA). Eram 21h20m quando o Chefe do CODA, o então Major Aviador Ney Antunes Cerqueira, que já havia sido informado sobre a ocorrência, chegou ao Centro de Operações Militares (COpM). Sua primeira providência foi acionar o avião de alerta da Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, para que este interceptasse sem demora o alvo não-identificado. No Rio de Janeiro, o piloto do alerta era o Tenente Aviador Kleber Marinho, hoje Primeiro-Tenente da Reserva, com 250 horas voadas em caças Northrop F-5 e um total de 900 na Força Aérea: "Como piloto de alerta naquele dia, fui contatado pelo oficial de permanência, na Vila dos Oficiais, local onde morava. A informação passada era a de que o piloto de alerta havia sido acionado, e então, por doutrina e treinamento, eu me dirigi diretamente para o avião e só depois da decolagem é que recebi as específicas instruções necessárias à minha missão. O piloto de alerta não precisa passar pela burocracia de um vôo normal. O avião já está preparado para a decolagem." Com os motores rugindo, o F-5 decolou rumo ao manto da noite. Eram 22hl0m.

O primeiro caça a decolar na noite de 19 de maio de 1986 foi um F-5E pilotado pelo Tenente Aviador Kleber Caldas Marinho. Hoje, ele continua pilotando aeronaves na Varig Ao mesmo tempo, outro alvo era detectado a nordeste de Anápolis, no longínquo Estado de Goiás, o que fez com que os pilotos de caça sediados na Base Aérea daquela cidade também fossem acionados. O primeiro a decolar, em um dos F-103 Mirage, foi o então Capitão Aviador Rodolfo da Silva Souza. É importante frisar que os radares, até então, eram desenvolvidos para detectar alvos de, no mínimo, dois metros quadrados, mas não permitia ainda que o seu operador conseguisse avaliar as suas reais dimensões. Na Base Aérea de Santa Cruz, um segundo avião foi acionado. "Foi uma tremenda coincidência", diz o então Capitão Marcio Brisola Jordão, segundo piloto de F-5 a levantar vôo naquela noite. "Eu não estava escalado de alerta. Tinha ficado em Santa Cruz para estudar para uma prova de ensaio em vôo. Quando o alerta foi acionado, pensei que era treinamento e continuei estudando, até que o soldado de serviço veio com a informação de que estavam precisando de outro piloto para voar. Ele só disse que havia alguma situação de detecção de contatos desconhecidos e que até o avião reabastecedor deveria ser acionado". "Sempre tem um avião reserva preparado", diz Jordão, "no caso, quem não estava preparado era eu, o piloto! Mas eu é que estava no Esquadrão e então fui. O Kleber foi o primeiro. Para a gente, era um treinamento normal, mas, com a evolução da situação, outro F-5 foi acionado". Antes de decolar, o Capitão Jordão ainda ligou para o Centro de Operações Militares em Brasília, para saber o que estava acontecendo. Foi com a informação de que os radares plotavam diversos alvos em diferentes pontos do céu brasileiro, e foi com a expectativa de contatar algum destes alvos, que ele levantou vôo, por volta de 23h15m.
 

A ordem dada aos pilotos foi de interceptação sem assumir uma postura agressiva. Nestes casos, como procedimento padrão, decolaram armadas com canhões, mas sem a intenção de utilizá-los. Outras duas aeronaves, pilotadas pelo Capitão Armindo de Souza Viriato e pelo Capitão Julio Cezar Rozenberg, ainda decolaram da Base Aérea de Anápolis, totalizando cinco diferentes tentativas de interceptação.


A INTERCEPTAÇÃO

"A decolagem foi normal, fiquei em torno de 20 mil pés na direção de São José dos Campos. Por orientação da defesa aérea, desliguei todos os equipamentos de bordo: radar, luzes de navegação... Fiquei apenas com o rádio de comunicação ligado", conta o Tenente Kleber. E continua: "Como os alvos não possuíam equipamento algum que transmitisse qualquer onda eletromagnética, não era possível saber a altura em que voavam. Toda a orientação que me foi dada era para que eu fizesse procuras visuais. De acordo com os radares de Brasília, eu deveria olhar para as minhas 2 horas e 11 horas, alto e baixo. Mas eu não via nada." Quando mais próximo de São José, o controlador radar passou a dar instruções mais incisivas para que o piloto olhasse para a sua esquerda: "Eu estava bem em cima da fábrica da Embraer e nada havia avistado até então. Em função destes alvos aglomerados na minha esquerda, o controlador pediu que eu fizesse uma curva pela direita e voltasse em direção a Santa Cruz, com 180 graus defasados."

Assim que se estabeleceu nesta curva, o Tenente Kleber foi instruído a olhar para a sua direita, o que em nada acarretou novamente. Como o controlador tinha os alvos no radar, comandou ao piloto uma curva para cima deles, com a proa do mar: "Eu efetuei a curva, estabilizei a aeronave na proa que ele havia recomendado e, como pedido, comecei a fazer uma varredura visual. Foi neste momento que eu avistei uma luz muito forte que se realçava em relação a todas as luzes no litoral. Estava um pouco mais baixa do que eu. A impressão nítida que eu tive, naquele momento, era de que ela se deslocava da direita para a esquerda". Como a visão noturna é muito crítica, pois deixa o piloto sujeito a uma série de erros de avaliação, e como o F-5 não tem piloto automático, o Tenente Kleber teve muito cuidado em estabilizar a aeronave naquele momento. "Olhei para aquela luz. O seu movimento era muito evidente para mim. Perguntei à Defesa Aérea se existia algum tráfego naquele setor no momento, devido à proximidade com a rota da ponte-aérea, na época. Fui informado que não. Não existia aeronave alguma no local naquela hora. Informei então ao controlador que eu realmente estava vendo a luz se deslocando na minha rota de interceptação, às 2 horas (à minha direita), um pouco mais baixo do que a posição da minha aeronave. Foi naquele momento que eu pude ter uma noção da altura do contato, algo em torno de 17 mil pés. Imediatamente recebi a instrução de aproar aquele alvo e prosseguir com a aproximação e sua possível identificação."

perseguição O Tenente Kleber, então, abriu a pós-combustão do F-5, atingindo velocidade supersônica e começou a ir em direção à luz que via no horizonte: "Não havia muito tempo para pensar, nem para sentir medo. É a adrenalina que funciona na hora. Você tem o avião para voar, está em um vôo noturno, supersônico, sujeito à desorientação espacial... Eu confesso que não tenho recordações exatas dos meus sentimentos naquele momento. A única coisa que eu sabia é que tinha que ir para cima do alvo e, à medida que as coisas vão acontecendo, e devido ao nosso treinamento, as reações passam a ser um pouco automáticas."

"Comecei a descer, indo diretamente para o alvo, mas tomando todo o cuidado com uma possível ilusão de ótica, proporcionada pela visão noturna. Eu podia estar vendo uma luz dentro d'água, um grande navio com holofote... Por este motivo eu não quis ficar apenas com a orientação visual e liguei meu radar, mesmo sem instrução de fazê-lo. E, realmente, a cerca de 8 a 12 milhas, um alvo apareceu na tela, confirmando a presença de algo sólido na minha frente. Isto coincidia com a direção da luz que eu havia avistado. Nos radares que equipavam os caças da época, o tamanho do plote varia de acordo com o tamanho do contato. O radar indicava um objeto de cerca de 1 cm, o que significa algo na envergadura de um Jumbo (Boeing 747)."

"Cheguei perto do alvo, posicionando-me a cerca de seis milhas de distância dele, o que ainda é longe para que possa haver uma verificação precisa, ainda mais à noite. O alvo parou de se deslocar na minha direção e começou a subir. Eu não perdi o contato radar inicial e passei a subir junto com ele. Continuei seguindo o contato até cerca de 30 mil pés, quando perdi o contato radar e fiquei apenas com o visual. Mas, naquele momento, aquela luz forte já se confundia muito com as luzes das estrelas."

"Os meus rádios de navegação selecionados em Santa Cruz já estavam fora de alcance. Em determinado momento, as agulhas do meu ADF deixaram de ficar sem rumo e indicaram a proa. A minha janela do DME, que estava com a flag, indicou 30 milhas fixas, sem qualquer razão para isso. O combustível já estava chegando no limite, devido ao grande consumo das velocidades supersônicas e eu tive que voltar. Menos de um minuto depois que aproei em Santa Cruz novamente, meu ADF voltou a ficar sem qualquer informação e a janela do meu instrumento DME fechou de novo, deixando de aparecer."

A noite de 19 de maio de 1986 ficou famosa mundialmente. Foi a primeira vez que autoridades governamentais de um país divulgaram, com naturalidade, a existência em seu espaço aéreo de objetos voadores não-identificados. Naquela noite, os radares do CINDACTA 1, sediado em Brasília, mas que cobre toda a Região Sudeste, além da Capital Federal, captaram inúmeros plotes não-identificados e com perfis de vôo incomuns. Para identificá-los foram acionados cinco aeronaves interceptadoras em alerta nas Bases Aéreas de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, e de Anápolis, em Goiás. Este mapa mostra a área na qual ocorreram os contatos, os sítios radares que acusaram contatos e o posicionamento dos objetos voadores não-identificados. Arte: Alex Argozino

O primeiro piloto de Mirage a decolar da Base Aérea de Anápolis foi o então Capitão Aviador Rodolfo da Silva e Souza. Durante seu vôo, os contatos detectados pelos radares do CINDACTA pareciam se deslocar evitando o seu Mirage. Experiente, Rodolfo ainda viria a comandar o 3º/10° GAV, Esquadrão Centauro, com sede na Base Aérea de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Hoje vive em Brasília (DF) Já na Base Aérea de Anápolis, no interior de Goiás, uma situação semelhante estava prestes a acontecer. O piloto de alerta daquela noite era o Capitão Aviador Rodolfo da Silva e Souza, que possuía na época aproximadamente 500 horas de F-103 e que estava em sua casa no momento do chamado. O bip que ele portava emitiu um sinal de chamada e uma mensagem de acionamento do alerta, por volta das 23h. O piloto deveria se dirigir imediatamente à Base Aérea, e foi o que ele fez.

"Ao chegar, eu me dirigi, juntamente com os demais membros da equipe de alerta, imediatamente para os hangares, onde estavam posicionadas duas aeronaves F-103E. A equipe de manutenção já havia completado o seu trabalho e nos esperava, ao pé da escada, com as aeronaves prontas e armadas para a decolagem. Completei os cheques previstos para antes da partida e entrei em contato com o Oficial de Permanência Operacional (OPO) para informar que estava pronto. De imediato, recebi ordem para acionar o motor e decolar isolado. Meu ala permaneceu no solo".

Ao iniciar o táxi, o Capitão Rodolfo entrou em contato com a torre de controle. Recebeu instruções para curvar, após a decolagem, para o setor noroeste do aeródromo, e iniciar a subida em potência máxima para o nível 200 (20.000 pés): "Em seguida, fiz contato com Anápolis, que me passou, de imediato, para a freqüência do COpM que controlaria a interceptação. A primeira informação que recebi foi de que meu alvo se encontrava a uma distância de 100 milhas da posição em que eu estava. Pude perceber que o tempo estava bom, não havia nuvens e nem a lua aparecia. O céu, completamente estrelado, fazia um belo contraponto com a escuridão da noite".

Quando foi informado de que o alvo já estava dentro do alcance de seu radar de bordo, o Capitão Rodolfo passou a observar atentamente a tela, buscando encontrar o plote que indicasse a sua presença. Mas nada aparecia: "À medida que a distância diminuía, como não conseguia contato em meu radar de bordo, passei simultaneamente a realizar uma busca visual no espaço aéreo em torno da posição informada pelo COpM. Só que, mais uma vez, nada apareceu."

Já que estava em situação de plotes confundidos, quando piloto e alvo estão a menos de uma milha de distância um do outro, e como não havia contato visual, o Capitão Rodolfo recebeu instruções para entrar em órbita sobre o ponto, e continuar a busca: "Ainda estava nesse procedimento, sem sucesso, quando recebi a informação do controlador de que meu alvo havia mudado deposição e agora estava em outra direção, a 50 milhas de distância. Fui então orientado para essa nova interceptação". Ao atingir o local onde o alvo supostamente deveria estar, não houve contato no radar de bordo e nem visual. A orientação dada foi para que o piloto baixasse o nível de vôo e realizasse uma órbita, em busca de algum contato visual. "Sem sucesso nesse procedimento, fui novamente informado de outra alteração no posicionamento do alvo e recebi novas orientações para uma terceira interceptação. Mais uma vez, não houve qualquer contato radar ou visual. Fui orientado a baixar ainda mais o nível de vôo, permanecendo em órbita sobre o ponto determinado, e continuando a procura. Depois de algum tempo nessa busca, e tendo em vista que minha autonomia de vôo já havia atingido o nível suficiente apenas para permitir o meu retorno seguro para o aeródromo, recebi instruções para o regresso."

Por volta de 22h:45m, portanto pouco depois do Mirage do Capitão Rodolfo, havia decolado de Anápolis o então Capitão Armindo de Souza Viriato de Freitas, pilotando outro F-103. De acordo com relatos, seu contato com o alvo foi feito apenas através de seu radar de bordo, não tendo havido contato visual. O que mais surpreendeu o piloto foi a incrível velocidade do alvo, e seu repentino desaparecimento. Sem nada ter visto, em poucos minutos o Mirage do Capitão Rodolfo tocava a pista da Base Aérea de Anápolis. "Após o pouso, fiz um contato telefônico com o meu controlador, para o debriefing rotineiro da missão. Só assim tomei conhecimento dos outros F-103 que haviam sido acionados. Eles decolaram depois de mim, para a averiguação de diversos contatos-radar, plotados nas telas do CINDACTA, em pontos diferentes da Região Centro-Oeste. Ao terminar os procedimentos pós-vôo de praxe, fui liberado e autorizado a retornar para minha residência, onde cheguei por volta de 1h30m. Uma hora mais tarde, fui acordado por um novo acionamento do bip. Era outro alerta. Ao chegar à Base e entrar novamente em contato com o OPO, a orientação, desta vez, era para que o alerta fosse mantido a postos, e as aeronaves prontas para a decolagem. O meu ala e eu ficamos assim por cerca de 45 minutos. Quase às 4h, recebemos a informação de que o alerta estava suspenso, e nós, liberados."

O Capitão Aviador Marcio Brisola Jordão foi acionado para decolar um segundo F-5E da Base Aérea de Santa Cruz. Seu vôo resultou na visualização de uma luz, porém, sem conclusões definitivas O segundo piloto a decolar da Base Aérea de Santa Cruz, por volta de 23h15m, o Capitão Marcio Brisola Jordão, também conta a sua experiência: "Uma coisa que chamou a minha atenção naquela noite foi a claridade do céu. Eu nunca havia visto uma noite tão clara. Sabe aquela noite que você anda de carro com a luz apagada e consegue ver tudo? Dava para ver o Vale do Paraíba, até São Paulo. Não havia nebulosidade. Era possível ver o contorno das montanhas no chão. Uma visibilidade sob a qual poucas vezes eu voei. Indo em direção a São José dos Campos, fui instruído por Brasília a fazer o cheque de armamento. Foi aí que me informaram que havia cerca de cinco contatos na minha frente, e a umas 15 milhas de distância. Eu não via nada no radar do avião e nem do lado de fora, mas a informação era de que eles estavam se aproximando cada vez mais. Dez milhas, cinco milhas, três milhas, e eu pensando que não era possível, em uma noite daquelas, eu não estar enxergando o tal contato".
 

O controlador então informou ao piloto do F-5: "Agora estão atrás de você, te acompanhando, como se estivessem na sua ala", mas ele não via nada. "Tive autorização para fazer um 180, e continuei sem ver coisa alguma. Fui pra São José dos Campos, voando a cerca de 15 mil pés, e comecei a fazer órbitas. Chamei o Kléber na freqüência tática para saber se ele tinha avistado alguma coisa. Ele disse que sim, mas que, quando tentou ir atrás, o contato sumiu. Quando eu estava em cima de São José dos Campos, olhei em direção à Ilha Bela e, pela primeira vez, vi uma luz vermelha, parada. Para mim, estava no nível do horizonte, mas eu estava olhando para o oceano, o que me fez acreditar que podia ser um barco muito longe, ou algum outro tipo de iluminação. Era como luz de alto de edifício. Ficou parada, não mudou de cor, não piscou e nem se mexeu. Eu avisei ao controle que estava vendo uma luz na proa, 90 graus em direção ao oceano. Como confirmava com o contato no radar de terra, fui instruído a ir em sua direção. Entrei supersônico para acelerar, e a luz nem se mexia. Fui informado de que ela estaria andando na mesma velocidade que eu. Fui mantendo esta navegação até dar o meu combustível mínimo, e tive que voltar. Para mim, que decolei com uma expectativa dada por Brasília, foi a maior frustração da minha vida. A luz que vi podia ser um barco no horizonte ou, quem sabe, ser mesmo alguma outra coisa. Mas é leviano chegar a qualquer conclusão."

Em Anápolis, um quinto piloto ainda participou da missão de interceptação: o então Capitão Aviador Júlio Cezar Rozenberg, na época com 1.900 horas de vôo em caças, sendo 550 em Mirage. "Era um dia normal no Primeiro Grupo de Defesa Aérea, até a hora em que o meu bip tocou de madrugada. O alerta havia sido acionado. Eu estava dormindo e levantei sem nem saber que horas eram. Faz parte da rotina. Eu me vesti e no caminho da Base fiquei me questionando se aquilo seria apenas mais um teste. Eu esperava voar, afinal, não há nada mais chato do que ir para o hangar do alerta, abastecer e ser dispensado. Toda missão da Defesa Aérea é real até ser cancelada, então vesti o traje anti-g, o colete e o mecânico confirmou a aeronave pronta. O armamento também estava certo e municiado. Haviam se passado 22 minutos desde que o alerta tinha sido dado. Preparei-me para decolar imaginando o que estaria acontecendo. Pela proximidade com Brasília, imaginei que estivesse atrás de algum vôo comercial, mas, se fosse, eu teria avistado as luzes anticolisão. Fui seguindo todos os comandos do controlador. A noite estava linda, com a visibilidade ilimitada. Era possível ver tudo lá embaixo, desde as cidades até os faróis dos carros".

O Capitão Júlio Cezar Rozenberg, hoje Coronel Aviador da Reserva, servia no 1ºGDA na noile de 19 de maio de 1986. Antes de deixar o serviço ativo foi Comandante do l°/4º GAV (Esquadrão Pacau) "Fui instruído a elevar a minha altura. Verifiquei mais uma vez o radar de bordo e desci um pouco a varredura da antena. Continuei acompanhando o radar de bordo e buscando algo no visual. A nossa distância, informada pelo controlador, era de apenas três milhas e eu continuava sem enxergar nada. Imaginei que eram os F-5 do Grupo de Caça, vindo atacar a Base em missão de treinamento. Pedi para o controlador me aproximar ainda mais até 'confundir' os plotes, com minha chegada vindo por trás. Achei que o contato iria, finalmente, acender as luzes, afinal, eles deveriam estar ouvindo a interceptação pelos canais da Defesa Aérea. O controle anunciou uma milha na proa, mas eu não tinha nada no radar, e nem no visual. 0 meu vôo durou cerca de 30 minutos e, depois das tentativas de busca, regressei à Base, sem fazer qualquer tipo de contato".
 

Depois de tudo mais calmo nas bases aéreas do país, já por volta das 3h, quando, aparentemente, os céus brasileiros não eram mais freqüentados por nada fora do normal, um vôo cargueiro da Varig, decolado de Guarulhos para o Galeão, no Rio de Janeiro, também teve participação nos acontecimentos. O Comandante do Boeing 707 cargueiro, Geraldo Souza Pinto, o co-piloto Nivaldo Barbosa e o Engenheiro de Bordo Guntzel e o então Capitão Aviador Oscar Machado júnior, à época servindo no 2º/2° GT e em instrução de vôo no equipamento 707, não faziam idéia do que estava acontecendo: "Quando cruzávamos cerca de 12 mil pés, o CINDACTA nos chamou no rádio e pediu para que confirmássemos se víamos algum tráfego na posição de 11 horas. É normal que isto ocorra, mas estranho foi quando, após respondermos negativamente, ele ter dito: 'Para sua informação trata-se de um OVNI (Objeto Voador Não-Identificado)'", relata o comandante.

"Olhamos um para o outro, imaginando que não havíamos entendido direito o que viera pelo rádio e pedimos para que a informação fosse repetida. O controle confirmou a informação e ainda disse que, desde aproximadamente às 22h daquela noite, estavam aparecendo objetos não-identificados, como plotes no radar. Foi aí que soubemos que, mais cedo, a Força Aérea já havia sido ativada. Nessa hora confesso que senti uma emoção indescritível. Perguntamos se o contato estava no radar deles, e a resposta foi positiva. O controlador nos disse que a sua posição naquele momento era de 11 horas em relação a nossa aeronave e pediu para que tentássemos avistá-lo. Foi nesta hora que eu o vi. Uma luz muito forte brilhou, como um farol branco. A emoção que eu tenho até hoje se confunde com a certeza de que ele estava acompanhando a nossa fonia. No mesmo momento em que nos perguntaram se estávamos avistando o tráfego e eu respondi que não, ele piscou, como quem díz: 'Estou aqui!'"

"Nós não tínhamos noção da altura do tráfego, pois os radares dos aviões comerciais são meteorológicos e, diferente dos caças, têm muita dificuldade de captar outra aeronave. Eles não são feitos para isso. O controlador também não podia saber a altura do objeto já que, sem transponder, tudo o que ele vê é a dimensão única do radar, sem diferença de altitude. O objeto estava próximo de Santa Cruz e a nossa distância era em tomo das 90 milhas. O que eu posso dizer é que ele estava, visualmente, a uns 20 graus mais alto do que nós. Atingimos nossa altitude de cruzeiro de 23 mil pés, e durante todo o vôo o controlador foi nos informando sobre a aproximação. Passou para 60 milhas, depois 50, o tempo todo na nossa proa."
 

Os tripulantes do Boeing abaixaram as luzes de dentro da cabine, acenderam os faróis externos buscando visualmente o contato: "Éramos quatro tripulantes no cockpit escuro de um avião cargueiro, buscando os céus ávidos de encontrar uma explicação sobre aquilo que tanto se aproximava do nosso 707. De repente, eu olhei para o Nivaldo e reparei na expressão dele, como se ele quisesse me mostrar alguma coisa. Ele disse que algo tinha se deslocado deixando um rastro luminoso, mas poderia ser um meteorito, o que seria muito comum. O controlador nos avisou, então, que o alvo havia se deslocado em alta velocidade para a nossa direita, atingindo, em fração de segundos, uma velocidade incrível, algo acima de Mach 5. Um ser humano não agüentaria uma aceleração dessas. Ele morreria com tal deslocamento!".

O objeto, nesta hora, desapareceu para o lado direito, e depois voltou exatamente para a proa do avião, já em uma distancia menor, segundo o piloto. "Nós estávamos a umas 30 milhas dele. A impressão que dava era de que o contato estava se deslocando em baixa velocidade, e nós é que estávamos nos aproximando dele. A aproximação continuou. O radar ia nos avisando as distâncias: quinze milhas, dez, cinco... Na melhor das hipóteses entraríamos para a História!", brinca o Comandante Souza Pinto. "Mas eu olhava, olhava e não via mais nada. Aí o controlador falou: 'Três milhas, duas, uma.. Varig, o tráfego está se fundindo com o plote do seu avião.' Nós olhávamos para cima, para baixo e não víamos nada! O Controle nos informou, então, que o alvo estava passando para trás da aeronave, mas começou a ter muita interferência no solo e o radar o perdeu de vista."


CONCLUSÕES FINAIS

Duas décadas se passaram desde "A noite dos OVNIs", sem que se possa ter chegado a alguma conclusão científica sobre o ocorrido. As considerações de quem vivenciou esta experiência são as melhores formas de se avaliar o fato e de se chegar às suas próprias conclusões. O que sobrevoava o território brasileiro naquela data, provavelmente, vai continuar sendo um mistério pelos próximos anos.

O Ministro da Aeronáutica na época, Brigadeiro Octávio Júlio Moreira Lima, diz que, até hoje, mesmo com os relatos dos pilotos e dos controladores, não há como se chegar a uma conclusão definitiva: "Há muitas hipóteses. Pode ter sido um fenômeno eletromagnético, uma interferência qualquer... Mas a situação continua indefinida. Só acho importante lembrar que ilusão de ótica o radar não registra", diz. "Já o piloto, sim, ainda mais à noite, está sujeito a ter ilusões de ótica fantásticas. Voando em cima da água, por exemplo, você vê o céu lá embaixo, por isso tem que voar por instrumentos. Há casos de pessoas que viram coisas estranhas, mas a maioria das histórias é mesmo fantasiosa. Então, uma autoridade tem que ter muito cuidado para nao tornar crítica uma situação que já é alarmante. Quando alguém se depara com um contato, informa ao tráfego aéreo, que vai reportar aos centros integrados, situados em Curitiba (PR), em Brasília, em Recife (PE), e na Amazônia... Estes centros estão em permanente comunicação, é tudo automatizado. Fui informado logo de imediato. Quando ocorre uma situação dessas, o Comando Geral do Ar logo dá ciência ao Ministro. E a partir dai que os procedimentos de interceptação são disparados. E foi assim que ocorreu. Os caças levantaram vôo apenas com ordem de verificação. Em nenhum momento foi mantida uma postura agressiva. Como poderíamos atirar em algo que desconhecíamos? As luzes foram plotadas no radar e tínhamos que tentar identificá-las. Não existe aquela preocupação de decolar com mísseis, como nos filmes. Os aviões de permanência geralmente estão armados. Eles ficam 24 horas com os pilotos do lado, prontos para serem acionados em minutos, mas, a principio, sem ordem de disparo".
 

As opiniões sobre o fato variam de uma pessoa para outra. Mesmo quem não conseguiu fazer qualquer tipo de contato tem as suas próprias idéias. É o caso do Capitão Júlio Cezar Rozenberg, hoje Coronel da Reserva, que teve que se contentar em ouvir os relatos alheios: "No dia seguinte, vi as manchetes nas televisões e nas rádios anunciando várias interceptações de OVNIs ocorridas tia noite anterior. E justo eu, um apaixonado pelo assunto, não vi nada! Mas cheguei perto. Acho que em um Universo infinito destes, com diversas possibilidades, não tem por que estarmos sozinhos". Pensamentos semelhantes tem o próprio Brigadeiro Moreira Lima: "Muitas vezes me perguntam se eu acredito ou não na presença de objetos voadores não-identificados naquela noite", revela o Brigadeiro. "Eu não acredito e nem desacredito, pois, assim como o Universo, isto é algo além da nossa compreensão. Chega a um ponto em que coisas extrapolam nosso entendimento e é assim que se iniciam as especulações. Eu sempre digo o seguinte: nós somos produtos do Universo. Produtos químicos, físicos, de todas as formas. Será que este produto só existe aqui na Terra? Há bilhões de estrelas e planetas por aí".

O Tenente Kleber, hoje oficial da reserva e voando na Varig como comandante, mesmo depois de ter feito os seus relatórios, confessa que não chega a conclusão alguma: "Eu tive contato visual e contato eletrônico. Era algo sólido. Dizem que naquele lugar há muita anomalia magnética, mas eu não acredito que seja isso. As anomalias têm movimentos irregulares, aleatórios. No meu relatório, eu pedi que fosse averiguado se havia algum porta-aviões próximo à costa, ou alguma aeronave que poderia estar sobre o nosso espaço aéreo, efetuando contramedidas eletrônicas, o que permitira colocar um plote nos radares. Nada do que eu presumi foi confirmado. A partir daí, afirmar que acredito em OVNIs, ou que aquilo era, de fato, um OVNI, já é outra coisa. Cada um vai tecer a sua opinião. Acho que esse Universo é muito grande para que só nós existamos nele. Seria muito egoísmo da nossa parte acreditar nisso, mas a verdade é que ficamos sobre uma linha muito tênue. Era a posição que eu tinha na época, o avião que eu estava voando, e todas as minhas crenças. Então, eu prefiro me referir apenas à parte técnica".

Para quem acompanhou e participou dos bastidores da história diante das telas dos radares, como o Major Aviador Ney Antunes Cerqueira, hoje Coronel da Reserva, havia sim alguma coisa sobre o Brasil naquela noite: "Só não podemos afirmar o que era. Mas, mediante a coincidência de detecções radares distintas e,